domingo, maio 27, 2007

O pé descalço

Está deitado numa das pontas da Praça do Comércio. Dorme. Saio do eléctrico e dou de caras com o velho, de barbas longas e velhas, de matizes cinzas. Dorme, enrolado num casaco sujo, esburacado. Não quero olhar, sei que vou escrever sobre ele e não tenho o direito de o fazer. Tem um dos pés descalço, a pele é escura, aroxeada, os dedos maltratados, inchados, como que numa suave transição para a putrefacção. No outro pé, uma sapatilha moderna, embora já gasta do uso. Os turistas passam, de máquinas fotográficas apontadas ao arco da praça e aos eléctricos vermelhos, alegres, com o rio algures lá ao fundo. O velho dorme e eu penso que aquele é um bom sítio para morrer.

1 comentário:

Poltergeist disse...

«O velho dorme e eu penso que aquele é um bom sítio para morrer.»

essa fraze eh tao linda :')´...